{"id":2811,"date":"2021-02-18T17:46:04","date_gmt":"2021-02-18T17:46:04","guid":{"rendered":"http:\/\/jconline.esep.pt\/?p=2811"},"modified":"2025-06-26T10:21:59","modified_gmt":"2025-06-26T10:21:59","slug":"nao-me-despedi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/2021\/02\/18\/nao-me-despedi\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Me Despedi"},"content":{"rendered":"\n<p>O \u00faltimo beijo. O \u00faltimo abra\u00e7o. O \u00faltimo toque. O \u00faltimo olhar. A pandemia tirou trabalhos e empregos, distanciou amigos e fam\u00edlias, provocou crise social e financeira. Determinou a separa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses entre fronteiras. Trouxe sequelas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas dif\u00edceis de apagar. Trouxe situa\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis e m\u00e1goas insuper\u00e1veis; entre elas, tirou a possibilidade de haver uma \u00faltima despedida daqueles que partem para sempre.<\/p>\n<p>At\u00e9 ao momento (fevereiro de 2021), a Covid-19 j\u00e1 matou mais de 2 milh\u00f5es e 300 mil pessoas, em todo o mundo. Em Portugal, o n\u00famero j\u00e1 ultrapassa os 14 mil. O coronav\u00edrus n\u00e3o escolhe idade nem sexo. Mata diariamente v\u00e1rias pessoas, pelo pa\u00eds inteiro. O ano de 2020 terminou com 123 mil mortes. N\u00e3o morriam tantas pessoas h\u00e1 mais de 100 anos, escreveu o Jornal de Not\u00edcias. Faleceram, para al\u00e9m dos casos da Covid-19, um grande n\u00famero de portugueses. Fosse por outras patologias, acidente ou apenas pela idade, essas pessoas partiram. Desde mar\u00e7o de 2020, seguindo as normas da DGS (Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Sa\u00fade), os familiares n\u00e3o podem despedir-se. Os caix\u00f5es permanecem fechados at\u00e9 ao final do enterro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull is-light has-parallax\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2819 size-large has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.35-1024x768.jpeg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#b5a38e\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A pandemia trouxe situa\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis e m\u00e1goas insuper\u00e1veis; entre elas, tirou a possibilidade de haver uma \u00faltima despedida daqueles que partem para sempre.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Testemunhos de filhos, sobrinhos e netos confirmam a dor do momento e a sensa\u00e7\u00e3o angustiante de n\u00e3o saber \u201cquem est\u00e1 ali\u201d. Falamos com a Gracinda Carmo, que perdeu a sua m\u00e3e. Com a Nita Barracho, que perdeu o seu pai. Com a Mariana Calado, que perdeu a sua tia-av\u00f3. Com V\u00edtor Tavares, que perdeu o pai. Com Madalena Martins, que perdeu a sua av\u00f3. Nenhum deles estava infetado com a covid-19, mas morreram em \u00e9poca de pandemia\u00ad. Os procedimentos s\u00e3o iguais, mesmo que a causa da morte seja diferente.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>Gracinda Carmo&nbsp;<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Gracinda Carmo conta a sua hist\u00f3ria. A m\u00e3e estava num Lar de Idosos porque tinha &#8220;a doen\u00e7a da dem\u00eancia&#8221;. Gracinda trabalha e n\u00e3o tinha como tratar da sua m\u00e3e, com todos os cuidados que eram necess\u00e1rios. \u201cChegou a cair e come\u00e7ou at\u00e9 a perder a no\u00e7\u00e3o se era de dia ou de noite, mas foi muito complicado deix\u00e1-la l\u00e1\u201d, admite. J\u00e1 no Lar de Idosos, Gracinda j\u00e1 s\u00f3 podia ver a sua m\u00e3e atrav\u00e9s de um vidro porque j\u00e1 existia casos de coronav\u00edrus em Portugal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/podomatic.com\/embed\/html5\/episode\/9956075?autoplay=false\" width=\"504\" height=\"208\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>A m\u00e3e de Gracinda faleceu dia 3 de abril de 2020. Quatro dias antes, teve uma nova queda. \u201cPerguntei logo se n\u00e3o era melhor ir para o hospital. Disseram logo que n\u00e3o, porque depois para regressar ao lar ia ser muito complicado por causa dos procedimentos da Covid-19. Ent\u00e3o, chamaram l\u00e1 um m\u00e9dico particular\u201d. Todos os dias, Gracinda ligava para saber novidades da m\u00e3e e do seu estado de sa\u00fade. Passou por \u201cum per\u00edodo horr\u00edvel. Chorava e s\u00f3 Deus sabe o que eu sofri\u201d. No dia em que a ia visitar, recebeu uma chamada do Lar a dizer que a sua m\u00e3e tinha piorado. Gracinda diz que percebeu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o. \u201cAssim que falei com ela ao telem\u00f3vel, porque lhe passaram a chamada, eu vi que a minha m\u00e3e n\u00e3o estava mesmo nada bem\u201d. Gracinda foi visitar a m\u00e3e, com todas as precau\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. \u201cVi que ela precisava urgentemente de ir para o hospital e chamei uma ambul\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull is-light has-parallax\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2860 size-large has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-5-1024x768.jpeg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#bcac9c\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cLogo, assim que falei com ela ao telem\u00f3vel, porque lhe passaram a chamada, eu vi que a minha m\u00e3e n\u00e3o estava mesmo nada bem\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Gracinda Carmo<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gracinda lamenta ainda que as funcion\u00e1rias do Lar de Idosos \u201cn\u00e3o tenham tido a capacidade de ver que a minha m\u00e3e estava naquele estado. Nem tinham pilhas no aparelho para medir o n\u00edvel de oxig\u00e9nio. A minha m\u00e3e estava a morrer e ningu\u00e9m via isso!\u201d. Foi para o hospital, aguardou que a m\u00e3e chegasse. Quando chegou, foi encaminhada para a zona da Covid-19. A m\u00e9dica que viu a sua m\u00e3e disse que ela \u201cassim que caiu, devia ter vindo logo porque ela partiu o punho e tem o joelho fraturado. Como ficou muito tempo sentada, sem a aten\u00e7\u00e3o devida, fez uma infe\u00e7\u00e3o generalizada e os \u00f3rg\u00e3os entraram em fal\u00eancia\u201d. O teste \u00e0 covid-19 estava negativo. Gracinda diz ainda que a sua m\u00e3e estava com uma \u201cprofunda tristeza, segundo a m\u00e9dica, porque deixou de estar acompanhada\u2026 tudo por causa da pandemia!\u201d. Nessa noite, a sua m\u00e3e faleceu. Gracinda nunca mais a viu.<\/p>\n<p>Hoje, quando vai ao cemit\u00e9rio, pergunta-se \u201cse \u00e9 mesmo ela que ali est\u00e1. N\u00e3o a vi, n\u00e3o a senti, n\u00e3o sei como ela foi\u2026 nunca mais a vou ver\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/podomatic.com\/embed\/html5\/episode\/9956125?autoplay=false\" width=\"504\" height=\"208\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Gracinda revelou que vai sempre ficar na d\u00favida do que podia ter sido feito de diferente se a sua m\u00e3e n\u00e3o tivesse falecido nesta \u00e9poca da Covid-19.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>Nita Barracho<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Nita Barracho perdeu o seu pai em junho. Estava num Lar de Idosos, depois de v\u00e1rias quedas e de fraturas que necessitavam de vigil\u00e2ncia constante. Nita revela que \u201cmesmo j\u00e1 no lar, o meu pai estava sempre a ir e a vir do hospital, e cada vez piorava mais. Desde a pandemia, nunca mais o pude acompanhar\u201d. Enquanto l\u00e1 esteve, o pai de Nita foi sucessivas vezes ao hospital e em todas ficava em confinamento e realizava o teste da Covid-19. Da \u00faltima vez, j\u00e1 entubado, Nita Barracho percebeu que a situa\u00e7\u00e3o do pai estava a piorar. \u201cEle j\u00e1 n\u00e3o saia dali e pedi, por favor, que me deixassem ver o meu pai\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/podomatic.com\/embed\/html5\/episode\/9956131?autoplay=false\" width=\"504\" height=\"208\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull has-parallax\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2874 size-large has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-7-1024x768.jpeg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#6a5849\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Sabia que ele j\u00e1 n\u00e3o saia dali e pedi, por favor, que me deixassem ver o meu pai.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Nita Barracho<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Perder um familiar nunca \u00e9 f\u00e1cil. O processo \u00e9 duro e o reconforto ajuda a ultrapassar a hora da dor. Em \u00e9poca de Covid-19, esta dor multiplica-se. Para Nita Barracho, fica sempre a incerteza \u201cporque o meu n\u00e3o morreu com aquele v\u00edrus, mas mesmo assim eu n\u00e3o sei se \u00e9 o meu pai que ali est\u00e1 e n\u00e3o me despedir dele vai ser uma dor que fica para sempre\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/podomatic.com\/embed\/html5\/episode\/9956140?autoplay=false\" width=\"504\" height=\"208\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: 18pt;\">Mariana Calado<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Mariana Calado perdeu a sua tia-av\u00f3. Recorda que \u201cela era aquela pessoa que estava sempre com a irm\u00e3, a minha av\u00f3, no Natal, a fazer os doces. Contou-me muitas hist\u00f3rias e ensinou-se muito\u201d. Mariana diz que s\u00e3o as pequenas recorda\u00e7\u00f5es que causam mais saudade. Expressa a revolta por n\u00e3o \u201cter tido a possibilidade de me despedir dela no lar e nem no hospital\u201d, assumindo que n\u00e3o via a tia-av\u00f3 h\u00e1 muito tempo e que ela n\u00e3o percebeu o motivo. Para ela, uma perda assim \u00e9 algo ainda mais marcante e deixa demasiadas quest\u00f5es sem resposta.&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/podomatic.com\/embed\/html5\/episode\/9956146?autoplay=false\" width=\"504\" height=\"208\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Mariana acha revoltante \u201cn\u00e3o existir a m\u00ednima chance de haver uma abertura para que se possa pelo menos olhar para os nossos familiares uma \u00faltima vez\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull has-parallax\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2886 size-large has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.36.40-1024x768.jpeg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#2f261d\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cEla era aquela pessoa que estava sempre com a irm\u00e3, a minha av\u00f3, no Natal, a fazer os doces. Contou-me muitas hist\u00f3rias e ensinou-se muito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Mariana Calado<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/podomatic.com\/embed\/html5\/episode\/9956154?autoplay=false\" width=\"504\" height=\"208\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Mariana confessou que custa sempre perder algu\u00e9m, mas que &#8220;um falecimento em \u00e9poca de Covid-19, mesmo que n\u00e3o se morra do v\u00edrus, deixa um sentimento de dever por cumprir porque parece que falta humanidade&#8221;&nbsp; naquela que ser\u00e1 a hora do \u00faltimo adeus.&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>V\u00edtor Tavares<\/strong><\/span><\/p>\n<p>V\u00edtor Tavares perdeu o seu pai em \u00e9poca de pandemia. N\u00e3o morreu de Covid-19, mas com patologias que j\u00e1 tinha h\u00e1 uns anos. O pai de V\u00edtor faleceu em casa, por isso, \u201cnessas condi\u00e7\u00f5es, ainda me consegui despedir dele e dar-lhe o \u00faltimo beijo, mas a partir do momento em que o caix\u00e3o foi fechado, j\u00e1 mais ningu\u00e9m o viu. Nem as netas, minhas filhas, nem a m\u00e3e dele, que ainda era viva\u201d. No vel\u00f3rio do seu pai, V\u00edtor diz que houve o mesmo tratamento que os doentes da Covid-19 t\u00eam e apenas \u201cmeia d\u00fazia de pessoas vieram prestar homenagem porque n\u00e3o era permitido mais, nem no vel\u00f3rio, nem no cemit\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull has-parallax\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2889 size-large has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-08-at-14.07.54-1024x768.jpeg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#7e6d5d\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;A partir do momento em que o caix\u00e3o foi fechado, j\u00e1 mais ningu\u00e9m o viu\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; V\u00edtor Tavares<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na cerim\u00f3nia f\u00fanebre, n\u00e3o houve missa nem cortejo. No enterro, n\u00e3o foi permitido abrir a urna. Para v\u00edtor, a dor que estava a sentir, tornou-se ainda mais dif\u00edcil de suportar devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, embora concorde que \u201cinfelizmente, quem morra da covid-19, por causa do v\u00edrus, se tenha que adotar esses procedimentos, mas as outras pessoas, que morrem devido a outras doen\u00e7as, no meu entender, n\u00e3o tinham que ter o mesmo tipo de funeral. N\u00e3o \u00e9 digno nem para quem fica, nem para quem vai\u2026\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>Madalena Martins<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Madalena Martins perdeu a sua av\u00f3. Faleceu em casa, o que permitiu a Madalena ter uma \u00faltima despedida, ao contr\u00e1rio do que se sucede a quem perdeu o familiar no hospital ou no lar. Madalena recorda com saudade a sua av\u00f3, que \u201ccuidou das minhas filhas enquanto eu n\u00e3o pude. Foi uma segunda m\u00e3e para mim e para elas. Vou ter muitas saudades\u201d. Lamenta n\u00e3o poder velar a sua av\u00f3, nem lhe \u201cdar um \u00faltimo toque no rosto. Ela esteve ali sozinha a noite inteira. Dev\u00edamos estar ali, ao lado dela, uma \u00faltima vez\u201d.<\/p>\n<p>Madalena revela que, na noite anterior ao seu falecimento, chamou a ambul\u00e2ncia porque a sua av\u00f3 n\u00e3o estava bem. Ela recusou ir e ficou em casa. Madalena pensa que \u201cela sabia que ia partir e queria ir em paz, no sossego da casa dela, e n\u00e3o no corredor de um hospital, no meio desta cat\u00e1strofe pand\u00e9mica\u201d. A sua av\u00f3 faleceu na v\u00e9spera de Natal de 2020. Madalena diz ainda que a sua dor \u201cfoi aumentada por tudo, pela \u00e9poca em que ela faleceu, pelo dia do ano em que aconteceu. Eu estava preparada, porque ela j\u00e1 tinha uma certa idade, mas ao mesmo tempo n\u00e3o estava\u2026 n\u00e3o queria que tivesse sido assim. Ela merecia mais e eu queria ter dado mais\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull is-light has-parallax\"><div class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2893 size-large has-parallax\" style=\"background-position:50% 50%;background-image:url(https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-3-1024x768.jpeg)\"><\/div><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#c1ac95\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Eu estava preparada, porque ela j\u00e1 tinha uma certa idade, mas ao mesmo tempo n\u00e3o estava\u2026 n\u00e3o queria que tivesse sido assim. Ela merecia mais e eu queria ter dado mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Madalena Martins<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o concorda com o modo de procedimento do funeral das pessoas que morrem sem a covid-19, uma vez que \u201ch\u00e1 a possibilidade de colocar um vidro ou de existir qualquer tipo de afastamento. Custa n\u00e3o tocar, mas ainda custa mais n\u00e3o poder olhar e dizer um \u00faltimo adeus\u201d. Para Madalena, a covid-19 \u201ctirou muito mais do que se pensa. Nestas situa\u00e7\u00f5es, leva um bocado de n\u00f3s, que vai sem um \u00faltimo reconforto e com a dist\u00e2ncia que nenhuma morte devia ter\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>As regras da DGS<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o dos funerais tem de obedecer \u00e0s normas da DGS, sem exce\u00e7\u00f5es e que, desde o in\u00edcio da pandemia, \u201cmuitos familiares optam pela hip\u00f3tese da crema\u00e7\u00e3o\u201d, explica Jos\u00e9 Maria Bonacho, propriet\u00e1rio de uma funer\u00e1ria. Para quem faleceu agora, neste per\u00edodo de segundo confinamento nacional, n\u00e3o existe vel\u00f3rio. Os familiares \u201cque antes estavam um dia a chorar a morte do seu falecido, est\u00e3o agora apenas uns minutos\u201d, refere. As Ag\u00eancias relevam ainda que o n\u00famero de funerais, no concelho de Portalegre, aumentou \u201cimenso\u201d; morreram, at\u00e9 ao momento, 47 pessoas, infetadas pela covid-19. O gr\u00e1fico seguinte ilustra esses n\u00fameros, desde o dia do primeiro \u00f3bito.&nbsp;<\/p>\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o segundo confinamento, que teve in\u00edcio em janeiro de 2021, a DGS atualizou as normas dos procedimentos funer\u00e1rios das v\u00edtimas da Covid-19. O caix\u00e3o poder\u00e1 ser aberto &#8220;o caix\u00e3o deve preferencialmente manter-se fechado, mas caso seja esse o desejo da fam\u00edlia, e houver condi\u00e7\u00f5es, pode permitir-se a visualiza\u00e7\u00e3o do corpo, desde que r\u00e1pida, a pelo menos 1 metro de dist\u00e2ncia&#8221;, diz Jos\u00e9 Maria Bonacho. Existe ainda a hip\u00f3tese de a visualiza\u00e7\u00e3o ser feita &#8220;atrav\u00e9s de caix\u00f5es com visor&#8221; sendo sempre proibido o contacto com o corpo ou caix\u00e3o. Continua, no entanto, a proibi\u00e7\u00e3o do vel\u00f3rio, nestes casos.<\/p>\n<p>Nos casos de falecimento, sem ter por causa a covid-19, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel esta a\u00e7\u00e3o, dando assim a possibilidade \u00e0s pessoas que est\u00e3o de luto pela morte do familiar ter um \u00faltimo olhar e \u00faltima despedida dos entes queridos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-attachment-id=\"2920\" data-permalink=\"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/2021\/02\/18\/nao-me-despedi\/whatsapp-image-2021-02-07-at-22-24-36-6\/\" data-orig-file=\"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6.jpeg\" data-orig-size=\"1824,1368\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"N\u00e3o Me Despedi\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6-1024x768.jpeg\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-2920 size-large\" alt=\"\" src=\"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6-1024x768.jpeg\" data-object-fit=\"cover\" srcset=\"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6-300x225.jpeg 300w, https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6-768x576.jpeg 768w, https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-6.jpeg 1824w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\" style=\"background-color:#6f5945\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p style=\"text-align: right;\"><em><span style=\"font-size: 18pt;\">Todos os dias, acontecem mortes. A todas horas, algu\u00e9m perde outro algu\u00e9m. Nos minutos, as recorda\u00e7\u00f5es s\u00e3o constantes. <\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><span style=\"font-size: 18pt;\">Dos momentos, a mem\u00f3ria \u00e9 eterna.<\/span><\/em><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Autor: Filipa Pereira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00faltimo beijo. O \u00faltimo abra\u00e7o. O \u00faltimo toque. O \u00faltimo olhar. A pandemia afastou fam\u00edlias. At\u00e9 na hora da morte. Ouvimos as hist\u00f3rias de quem perdeu o pai, a m\u00e3e e n\u00e3o conseguiu despedir-se. <\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":2945,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[5,17],"tags":[651,656,797,798,700],"class_list":["post-2811","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-sociedade","tag-autor-filipa-pereira","tag-covid-19","tag-despedida","tag-morte","tag-pandemia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/WhatsApp-Image-2021-02-07-at-22.24.36-2.jpeg","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p81ada-Jl","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2811"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5934,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2811\/revisions\/5934"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2945"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jconline.ipportalegre.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}