Exposição destaca o protagonismo e os desafios das mulheres negras

No dia 9 de março de 2026, junto ao auditório Abílio Amiguinho, no Instituto Politécnico de Portalegre, decorreu uma exposição dedicada à representação e às intervenções das mulheres negras, organizada pela investigadora e ativista Maíra Kaline Januário Cabral.

A exposição reuniu reflexões, referências teóricas e produções digitais que abordam questões como o racismo, machismo e desigualdades estruturais presentes na sociedade contemporânea.

No decorrer da exibição foi apresentada uma coletânea de 76 publicações realizadas entre junho de 2024 e fevereiro de 2025, reunidas a partir de conteúdos partilhados em espaços digitais e plataformas como o Instituto Mulher Negra (IMN) e o Portal Geledés.

Esta iniciativa procurou evidenciar como a comunicação digital pode servir de instrumento para amplificar vozes historicamente marginalizadas, particularmente as de mulheres negras.

Durante a apresentação, Maíra Cabral destacou que a iniciativa surge da necessidade de refletir criticamente sobre estruturas sociais que continuam a produzir exclusão. “Combater o machismo, o racismo, as doenças da sociedade”, afirmou, sublinhando que estes fenómenos exigem respostas contínuas. A investigadora reforçou ainda que “a luta não para, é contínua”, salientando que a transformação social depende da persistência de ações políticas, culturais e educativas.

A investigadora aferiu ainda durante a entrevista que as mulheres negras continuam a enfrentar desafios históricos ligados ao racismo e ao machismo, lutas que se prolongam há décadas. Segundo explica, para além da conquista de direitos básicos, como o acesso ao trabalho ou à participação política, as mulheres negras lutam também pelo reconhecimento da sua dignidade e da sua capacidade intelectual e profissional.

“São desafios que vêm de muitos anos e continuam até hoje”, afirmou.

Sobre a experiência académica em Portugal, Maíra reconhece que as universidades podem ser espaços de acolhimento, mas também de tensão. A ativista refere que estudantes internacionais, especialmente provenientes de países africanos lusófonos, enfrentam frequentemente dificuldades relacionadas com discriminação. Apesar disso, destaca o apoio recebido por professores, colegas e pela comunidade local. “Há pessoas que colaboram para que possamos viver bem aqui, mas também existem outras que ainda perpetuam o racismo e não querem perder os seus privilégios”, explicou.

A autora da exposição chamou também a atenção para a forma como os média e o audiovisuais continuam a reproduzir estereótipos raciais. Entre os exemplos referidos, destacou críticas feitas pela historiadora e ativista Beatriz Nascimento à representação da personagem Chica da Silva no cinema, apontando a forma como essas representações podem reforçar visões distorcidas das mulheres negras.

Maíra Cabral, referiu ainda estudos que demonstram como, em vários contextos europeus, as mulheres negras continuam a ser retratadas em papéis estereotipados, frequentemente associados a trabalhos de limpeza ou a imagens exóticas, raramente como estudantes, profissionais ou protagonistas. Para a investigadora, os profissionais da comunicação e do jornalismo têm um papel fundamental na mudança desse cenário. Dar visibilidade e protagonismo às mulheres negras é, segundo afirma, uma forma de quebrar estereótipos e promover uma sociedade mais justa.

O seu percurso pessoal também influencia a sua investigação. Maíra Cabral revelou ser “uma sobrevivente”. Desta forma reforçou o seu compromisso com a luta pelos direitos das mulheres.

No futuro, a investigadora pretende continuar a sua carreira académica e seguir para o doutoramento, com o objetivo de se tornar professora universitária. Para Maíra, a universidade é um espaço essencial para desenvolver investigação e contribuir para a transformação social. Para além do trabalho académico, participa também em iniciativas comunitárias no Brasil, partilhando conhecimento em comunidades e incentivando a autonomia e a educação como ferramentas de mudança.

“Se cada pessoa fizer a sua parte, é possível construir uma sociedade melhor”, concluiu.

 

Autores: Bárbara Silva, Erica Lourenço, Guilherme Vieira, Isabel Allen e Luísa Guerra

Fotografias: Isabel Allen e Bárbara Silva

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