“As verdades de facto estão em causa”: o jornalismo entre a urgência e o rigor XXX Jornadas da Comunicação 25 Março, 202625 Março, 2026 Há uma cultura que está a desaparecer: a cultura democrática O que significa procurar a verdade num tempo marcado pela urgência, pela desinformação e pela pressão constante? Foi a partir desta inquietação que, na manhã de 25 de março, o Auditório Abílio Amiguinho acolheu um dos momentos centrais do segundo dia das Jornadas da Comunicação para debater o tema “A verdade sob pressão: os desafios do jornalismo nos tempos de crise”. Depois da atuação do Grupo Académico Serenatas de Portalegre, o palco deu lugar a uma discussão intensa, na qual diferentes perspetivas se cruzaram para refletir sobre os limites, as fragilidades e o futuro do jornalismo. O debate, moderado pela aluna Raquel Silva, contou com a participação de Gisela Oliveira, professora no Instituto Politécnico de Tomar e ex-jornalista, Hugo Alcântara, jornalista da SIC e estudante de jornalismo, José Luís Garcia, professor e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, de Sandra Felgueiras, jornalista da TVI/CNN, e João Miranda, professor e investigador na Universidade de Coimbra. Num contexto marcado pela rapidez, pela pressão e pela transformação tecnológica, ficou evidente ao longo da sessão que o jornalismo enfrenta desafios profundos, mas também a necessidade de reafirmar o seu compromisso com a verdade. “Estamos num verdadeiro caos informativo” O tema em torno da forma como a crise do jornalismo afeta a procura da verdade, marcou a discussão. José Luís Garcia problematizou o próprio conceito de crise e considerou que, “crise não será a palavra mais adequada”, mas sim “dilemas”. O investigador alertou para o impacto da transformação digital, que “origina uma transformação no mundo social e transforma o jornalismo”, que foi “sacudido, desorganizado e empurrado” para uma realidade dominada pelos meios digitais. Existe uma mudança geracional clara em que os jovens “não distinguem a informação da internet do jornalismo”, reforçou o orador. Também Gisela Oliveira considerou que o momento atual resulta de uma “crise contínua”, associada a diferentes contextos de emergência. Para a docente, a pressão do tempo afeta diretamente o rigor, pois “na comunicação do risco, o jornalista não é mais rigoroso, tem é menos tempo para preparação e estudo”. A ameaça das fake news foi também sublinhada, sendo descrita como uma concorrência direta ao jornalismo de verdade: “nasce de um projeto em que a verdade está em causa”, acrescentando que “essa análise de verdade só pode ser feita por jornalistas”. Gisela Oliveira rejeitou o conceito de fake news porque “informações falsas nunca serão notícias”, já que a verdade está implícita na própria definição de notícia. A pressão do tempo foi um dos temas mais referidos e que condiciona o trabalho dos jornalistas na busca pela verdade. Hugo Alcântara foi claro sobre esta questão: “não é suposto que a verdade seja afetada” e os jornalistas não podem esquecer os seus deveres. No entanto, reconheceu que a pressão existe e é constante: o ciclo informativo de 24 horas é “avassalador”, o que leva muitas vezes a que práticas essenciais, como confirmar factos e fontes, sejam colocadas em segundo plano. Ainda assim, reforçou a necessidade de “comunicar com respeito para com o público”. Já João Miranda destacou o impacto da digitalização na forma como a informação é consumida: “somos bombardeados por notificações e conteúdos constantemente”. Para o docente, esta realidade cria uma “crise de tempo”, onde a necessidade de resposta imediata condiciona o trabalho jornalístico. O debate ganhou maior intensidade quando se abordou o controlo da narrativa em momentos de crise. José Luís Garcia foi claro: “não há controlo na narrativa, nem há narrativa”. Existe uma “proliferação de narrativas que nada tem a ver com a divulgação da verdade”. O investigador alertou para os perigos deste “caos informativo” e que é a continuidade da democracia que está em causa: “o desaparecimento da democracia é o desaparecimento do jornalismo”. Também Gisela Oliveira reforçou a mesma ideia e destacou o papel das redes sociais neste fenómeno, dizendo que “não há controlo de narrativas” e que “o meio se sobrepõe ao conteúdo”. José Luís Garcia alertou para a forma como é decidida hoje a agenda e que estamos numa “crise da mediação” onde já não são os cidadãos que procuram a informação, mas é a informação que vem até aos cidadãos através de mecanismos nem sempre claros ou transparentes. O investigador trouxe para a discussão o conceito de “curadoria algorítmica” para explicar que não se “trata de termos posições diferentes sobre os assuntos, mas de termos uma base comum para discussão”. Por outro lado, Sandra Felgueiras apresentou uma visão distinta, ao considerar que o debate sobre narrativas é, em parte, desajustado e a discussão é infantil”, pois a evolução tecnológica é inevitável e a adaptação é essencial. Reforçou que tem de haver sentido crítico e responsabilidade individual: “cada jornalista deve responder por si, só é corrompível quem se deixa corromper e só é pressionável quem se deixa pressionar”. “Nenhum jornalista é pé de microfone” A dependência de fontes institucionais constituiu outro dos pontos em análise. José Luís Garcia alertou que “a lógica do lucro não pode ser superior ao ethos jornalístico”, recordando casos como o do News of the World. Já Hugo Alcântara destacou que “não somos obrigados a concordar todos uns com os outros”, defendendo que as fontes institucionais dão “solidez” às notícias, apesar de também exercerem controlo sobre a informação, mas contrapôs “mal de nós, se dependêssemos das fontes institucionais”. Sobre esta questão, Gisela Oliveira reforçou o papel mediador do jornalista, afirmando que “o jornalista é um meio” e “não é pé de microfone”. Falar com um jornalista é, na prática, falar com milhões de pessoas. Por isso, defendeu que “o jornalista não é o inimigo”, mas exige condições para garantir rigor. O debate também abordou a formação de jornalistas e o futuro da profissão. Sandra Felgueiras criticou a falta de experiência de terreno em alguns profissionais, dizendo que aquilo que falta nas redações não são jornalistas, mas de jornalistas “bem pagos, que façam melhor jornalismo e que estejam de corpo e alma”. Gisela Oliveira interpelou os estudantes: “o jornalismo é um sacerdócio. Ou se tem vocação, ou não se tem” e questionou se os futuros jornalistas são motivados pela profissão ou pela visibilidade. José Luís Garcia foi claro sobre esta questão, pois as lógicas de mercado são bastante agressivas e a situação é muito complexa: “as condições em que se faz jornalismo hoje não são favoráveis aos jornalistas. E os jornalistas não têm de ser heróis.” Para Hugo Alcântara, aquilo que é necessário é uma maior “especialização no jornalismo”, reconhecendo que, na maior parte das vezes, os jornalistas têm pouco tempo para falar com especialistas e planear. Também João Miranda reforçou que “existe uma precarização na atividade e isso tem consequências no jornalismo que se faz hoje”, chamando a atenção para progressiva contração das redações e uma “menor capacidade da rede de cobertura, sobretudo geográfica”. Em entrevista ao JC.Online, José Luís Garcia sublinhou a preocupação com a perda de uma “cultura democrática”, associada à circulação de informação especializada. Para o investigador, “o que se passa é que há uma circulação de informação que não é feita por jornalistas, e que também não é feita por verdadeiros especialistas nos temas, que é feita muitas vezes por agências ou por particulares que difundem desinformação, mentiras, falsidades e teorias da conspiração…”. Acrescentou que o contexto é “muito complicado”, sobretudo num momento em que os meios tradicionais enfrentam uma crise económica, perda de anunciantes e profundas mutações tecnológicas. Quando questionado sobre se ficou algo por dizer no debate, José destacou a importância da formação prática: “Há sempre muitas coisas a discutir, por exemplo, como é que decorrem os estágios nas redações dos jornais? Como é que é feita a relação entre a universidade e os politécnicos e depois os meios de comunicação propriamente ditos? Como é que um jornalista, no fim da sua formação, pode tornar-se mais especializado em certas áreas? Que tipo de formação suplementar deve ter?” A ligação entre universidades e os representantes do jornalismo é essencial para construir um modelo onde a prática e o conhecimento académico caminhem juntos, permitindo que o jornalismo recupere o seu papel de referência e mantenha a credibilidade junto do público. Autores: Francisca do Carmo Coimbra, Pedro Gil Carrasqueira e Isabel Allen Share on Facebook Share Share on TwitterTweet Share on Pinterest Share Share on LinkedIn Share