Debate analisa a influência do design na credibilidade das notícias

Uma notícia não é apenas o que se lê, mas também o que se vê.


Numa época marcada pela predominância da imagem, especialistas reuniram-se para explorar o equilíbrio entre design, estética e credibilidade: como cores, imagens e tipografia podem moldar a confiança do público antes mesmo da primeira palavra ser lida.

Sob a moderação de Joana Cardoso, o debate contou com vozes que cruzam jornalismo e criatividade visual: Tiago Miguel Silva, jornalista do Alto Alentejo; Isaac Herves, designer criativo no Grupo Nabeiro Delta Cafés; Beatriz Soares, jornalista do grupo IMPALA; e João Matos, designer gráfico do Atelier Imprensa, especialista em transformar notícias em experiências visuais que comunicam tanto quanto o próprio texto.

O papel do design na perceção de credibilidade

A moderadora abriu o debate perguntando até que ponto o design influencia a forma como o público percebe a credibilidade de uma notícia.

João Matos explicou que a escolha de fontes, tipografia, imagens, paginação e cores é determinante para a perceção do leitor e para consolidar a credibilidade editorial. Beatriz Soares concordou, afirmando que “o design e o jornalismo têm de andar de mãos dadas”, mas criticou que nem sempre isso é possível devido à falta de recursos humanos.

Isaac Herves destacou que o design potencia a comunicação e ajuda a influenciar o consumo de conteúdos, embora sublinhasse que “o importante é o conteúdo da notícia”. Tiago Miguel Silva acrescentou que a estética também varia consoante o público-alvo, reforçando a importância da paginação adaptada e do design pensado para cada leitor.

Notícias visualmente apelativas e a confiança do público

A questão de uma notícia visualmente apelativa gera menor questionamento do público, motivou várias intervenções. Isaac comentou que “as plataformas de fake news são mais convincentes se o design for mais quantitativo”. João Matos citou o exemplo do Expresso, destacando a equipa dedicada exclusivamente à estética do site e das redes sociais, e sublinhou a importância de respeitar o trabalho dos fotojornalistas.

O jornalista do Alto Alentejo, com experiência prática, afirmou que uma fotografia de má qualidade pode reduzir a credibilidade da notícia. Ressaltou que ser responsável pela paginação e fotografia das próprias matérias é uma “mais-valia”, permitindo-lhe controlar a comunicação visual do conteúdo, apesar da falta de recursos.

Isaac comparou os jornais Expresso e Alto Alentejo, explicando que cada um adapta o design ao seu público-alvo, e que um design simples pode ser tão eficaz quanto um visual mais elaborado desde que cumpra a função comunicativa.

Estética como reforço de narrativas tendenciosas

O debate abordou também o uso da estética para reforçar narrativas tendenciosas. Tiago alertou que órgãos de comunicação podem explorar a estética para manipular perceções, lembrando que pessoas mais velhas têm tendência a acreditar mais facilmente em notícias visualmente impactantes. Ele recordou a influência do Professor Luís Pinheiro na sua formação, enfatizando a importância da fotografia jornalística.

Isaac reforçou que o design pode ser usado intencionalmente para influenciar, citando as plataformas de fake news como exemplo. Beatriz observou que, no seu trabalho em revistas cor-de-rosa, a estética como arma visual gera cliques, mas a longo prazo reduz a confiança dos leitores, que percebem a manipulação.

Consumo digital e análise crítica

A rapidez do consumo digital foi outro tema central. Beatriz Soares destacou que a pressa dos leitores afeta diretamente a análise crítica do conteúdo. Isaac acrescentou que a grande quantidade de informação nos telemóveis diminui o senso crítico, enquanto Tiago alertou que muitas pessoas hoje apenas leem títulos, sugerindo a necessidade de aumentar a literacia mediática.

João Matos comentou a obrigatoriedade dos jornais estarem nas redes sociais, como o Expresso, e que a versão digital paga permite alcançar leitores globalmente, embora a utilização de imagens possa ser limitada pelo tamanho dos ecrãs.

Algoritmos e personalização de conteúdos

No debate sobre o papel dos algoritmos de plataformas como Instagram e TikTok, Isaac explicou que a IA adapta conteúdos aos interesses individuais, criando oportunidades para divulgação de notícias ou produtos. Beatriz acrescentou que o uso das redes sociais é essencial, especialmente em vídeos e reels, para garantir a visibilidade das notícias. Tiago sublinhou a necessidade de publicar onde o público está, alertando que nem todos os que divulgam notícias são jornalistas, ao passo que João Matos enfatizou que os algoritmos podem alterar o retorno financeiro das notícias, sendo a publicidade, os eventos e as assinaturas digitais as principais fontes de rendimento.

Ética jornalística aplicada ao design

O debate abordou a ética aplicada ao design. Isaac salientou que “a ética aplica-se a tudo” e que os cidadãos são atores fundamentais nesse processo. João Matos destacou a importância da sensibilidade, citando que questões como tamanho da letra ou títulos sensacionalistas influenciam a experiência do leitor e a difusão das notícias. Beatriz resumiu: “O design deve ser uma extensão do trabalho jornalístico”, e Tiago acrescentou que “a ética é transversal a todas as áreas”.

O público ainda lê ou apenas vê?

Tiago Miguel Silva considerou que a maioria do público apenas vê as notícias, dando o exemplo da venda de jornais em papel no bairro do Atalaião, em Portalegre, onde os leitores se concentram na informação local. Isaac concordou, apontando que as redes sociais aumentaram a exigência, com os leitores a querer conteúdos rápidos e de qualidade.  A tendência dos leitores de passar apenas os olhos pelos títulos foi sublinhada por Beatriz Soares, justificando a aposta em vídeos para formatos digitais. João Matos comentou que a grande quantidade de informação contribui para a decadência da venda de jornais em papel.

O debate terminou com a participação do público. O aluno Luís Pereira, do Politécnico de Portalegre, questionou João Matos sobre a influência do seu trabalho na perceção das notícias. Matos respondeu afirmativamente: “A ilustração do texto é feita com imagem, muitas vezes recorrendo a bancos de imagens universais. Nem todas as pessoas que tiram fotografias são fotojornalistas, e essa diferença é gritante na fotografia usada numa notícia. Nem todas as pessoas que difundem informação são jornalistas.”

“As pessoas leem apenas os títulos”: como um jornalista local organiza a notícia?

Em entrevista ao JC.online, Tiago Miguel Silva, jornalista do Alto Alentejo, falou sobre os desafios de captar a atenção do público num mundo saturado de informação.

“Tento compor títulos mais informativos ou que puxem para um tema mais desenvolvido. Atualmente, as pessoas destreinaram-se de ler. Por isso, às vezes faço textos mais curtos com títulos igualmente curtos, mas informativos, na esperança de que as pessoas leiam aquele conteúdo. Vivemos numa imprevisibilidade grande relativamente aos interesses do público. Há tanta informação que é difícil adaptar tudo, mas tentamos sempre ajustar o título, o lead e o corpo da notícia para facilitar a compreensão”, salientou Tiago quando questionado sobre a sua afirmação de que “as pessoas leem apenas os títulos

Sobre a pressão de tornar as notícias visualmente apelativas num jornal local, Tiago sublinhou a relação próxima com o público:

“No nosso distrito, as pessoas querem ver-se no jornal. A fotografia é muito importante. Se eu não publicar a foto de um determinado morador, vão perguntar-me: ‘Porque é que a fotografia não saiu?’. Para muitas famílias que estão fora da região, o jornal é uma forma de mostrar que o familiar foi destacado. A imagem tem, portanto, um papel duplo: captar atenção e servir de reconhecimento para a comunidade.”

A conversa revela como, mesmo num contexto local, o design, a fotografia e a organização da notícia são ferramentas estratégicas para manter a ligação com o leitor, equilibrando estética, informação e relevância social.

Autores: Francisca do Carmo Coimbra e Pedro Gil Carrasqueira

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