O jogo continua, mas com cada vez menos atletas Desporto 9 Abril, 202626 Março, 2026 A redução do número de jovens tem reflexo, também, no desporto. No distrito de Portalegre, essa é a realidade. Clubes e associações enfrentam dificuldades crescentes em manter atletas e atividade regular. A exceção é o futebol feminino. No distrito do Alto Alentejo, o maior adversário dos clubes desportivos já não está dentro das quatro linhas. A diminuição do número de atletas, consequência direta da desertificação do interior, do envelhecimento da população e da saída de jovens para estudar ou trabalhar fora da região, está a colocar em risco a continuidade de várias coletividades, sobretudo ao nível dos campeonatos distritais. Em muitas vilas e freguesias, formar uma equipa completa tornou-se um desafio crescente. Clubes que durante anos participaram regularmente nas competições da Associação de Futebol de Portalegre enfrentam hoje dificuldades em reunir jogadores suficientes para manter plantéis estáveis, levando, em alguns casos, à desistência de campeonatos ou à interrupção de escalões de formação. No concelho de Portalegre, por exemplo, sentiu-se uma diminuição na faixa etária dos 15 aos 24 anos entre 2011 e 2021. Em 2011 havia 2366 pessoas, enquanto que em 2021 esse número desceu para as 2205 pessoas. Outro exemplo é o concelho do Crato, que em 2011 tinha 266 jovens e em 2021 registava apenas 234 jovens. Esta realidade repete-se de época para época. Equipas seniores iniciam os campeonatos com plantéis reduzidos, por vezes com apenas 14 ou 15 atletas inscritos. Uma lesão, uma mudança profissional ou a saída de um jogador para fora do concelho pode ser suficiente para comprometer toda a época desportiva. Em concelhos mais pequenos do distrito, como Avis, Fronteira, Sousel, Monforte ou Gavião, esta fragilidade é particularmente evidente. A falta de jovens residentes limita a renovação dos plantéis e obriga os clubes a recorrer, frequentemente, a atletas de localidades vizinhas para garantir o número mínimo exigido para competir. É o caso do Atlético Clube Fronteirense, onde João Peças, vice-presidente do clube de Fronteira, confirma este fenómeno: “Esta situação não resulta da falta de interesse pelo futebol, mas sim da diminuição da população jovem na vila de Fronteira. Cada vez há menos crianças e jovens, e isso reflete-se diretamente na nossa capacidade de formar equipas.” Em alguns escalões chegaram a ser obrigados a terminar equipas que existiam há vários anos. Vivem este momento com tristeza e frustração, visto que o clube é um espaço de convívio, de aprendizagem e de crescimento. O vice-presidente considera ainda: “Quando uma equipa termina, não se perde apenas futebol, perde-se também um ponto de encontro social muito importante para a vila.”. O Atlético Clube Fronteirense tem tentado várias alternativas, como parcerias com clubes vizinhos, partilha de atletas e até a criação de projetos mais abrangentes que envolvam escolas e associações locais. No entanto, estas soluções são limitadas e não substituem uma base populacional sólida. Mesmo com todas estas dificuldades mantêm esperança, dedicação e amor à camisola e a promessa de continuar a lutar “Adaptar-nos-emos às dificuldades, mas nunca deixaremos de acreditar que o clube tem um papel essencial na vila.”. O mesmo não se observa na Associação de Futebol de Portalegre. Segundo Daniel Pina, presidente da associação, o número de inscritos tem vindo a superar as expectativas, com o maior número de sempre há dois anos. O crescimento do futebol feminino também tem contribuído para estes números. Por outro lado, destaca que a maior dificuldade que se faz sentir passa pela perda de população no distrito, que leva a que se reflita também no desporto em geral. Outro exemplo real, desta vez no futsal, é o da equipa da casa do Benfica de Portalegre. Tito Martins, treinador da equipa, refere que “neste momento, há menos equipas no campeonato distrital de seniores masculinos”, no entanto, a equipa da casa do Benfica de Portalegre tem vindo a ter mais atletas, isto porque existem todos os escalões de formação no clube e até seniores femininas. Tendo em conta isto, aquele responsável acredita que haja atualmente mais público, no entanto, há menos equipas e isso não aumenta em nada a competitividade, pois acabam por jogar sempre contra os mesmos atletas. O treinador da casa do Benfica de Portalegre refere ainda que têm vindo a conseguir captar atletas, “apesar de ainda se notar que muitos são os que não obtiveram sucesso no futebol”. A perda de jogadores é ainda mais visível nos escalões de formação. Vários clubes que, há poucos anos, mantinham equipas de benjamins, infantis e iniciados, veem-se hoje obrigados a encerrar esses escalões por falta de crianças e adolescentes inscritos. Em alguns casos, a solução passa pela junção de escalões etários ou pelo pedido de autorizações excecionais para que atletas joguem fora da idade habitual. Apesar de permitirem a continuidade competitiva, estas medidas refletem uma realidade estrutural, que é a base de recrutamento local ser cada vez mais reduzida. A partir dos 16 anos, o abandono da prática desportiva torna-se mais frequente. A ida para escolas fora do concelho, o início da vida laboral ou a dificuldade em conciliar horários contribuem para o desaparecimento quase total de alguns escalões, como os juniores, em vários clubes do distrito. Esta saída precoce cria um efeito em cadeia, pois menos atletas jovens significa menos opções para as equipas seniores no futuro, comprometendo a sustentabilidade desportiva a médio e longo prazo. Ao contrário do que sucede com clubes de maior dimensão, cujas dificuldades estão muitas vezes associadas a questões financeiras ou estruturais, nos pequenos clubes do distrito de Portalegre o problema é essencialmente humano. Não se trata da falta de recursos monetários, mas da ausência de atletas suficientes para manter viva a prática desportiva local. Sem medidas que incentivem a fixação de jovens, o reforço da ligação entre clubes e escolas e a valorização do desporto como elemento central da vida comunitária, o risco é claro, o desaparecimento gradual de clubes que, durante décadas, foram pilares sociais e identitários das suas localidades. Clubes Atuais no Distrito de Portalegre Autores: Ana Grilo, Catarina Ramalho, Daniela Teles e Dinis Bilro Share on Facebook Share Share on TwitterTweet Share on Pinterest Share Share on LinkedIn Share