Masterclass na ESECS debate fronteiras entre jornalismo e assessoria política

O jornalismo e a política encontraram-se frente a frente, não como adversários, mas como peças de um mesmo jogo complexo. Foi sob esta tensão que Susana Barros abriu a masterclass “Jornalismo & Assessoria: Percursos na Comunicação Política em Portugal”, desafiando desde o primeiro momento os presentes a questionar fronteiras, papéis e lealdades no ecossistema mediático.

A sessão contou com a presença do diretor da ESECS, João Alves e da professora Adriana Mello Guimarães, que integrou a mesa e agradeceu a participação de alunos e docentes, destacando a importância da reflexão crítica sobre estas áreas.

Com um percurso que cruza o jornalismo político e a assessoria governamental, tendo exercido funções em três Governos Constitucionais entre 2019 e 2024, incluindo junto do Primeiro-Ministro, Susana Barros trouxe à sessão uma perspetiva informada pela experiência prática e pela reflexão académica, ainda que tenha referido que o seu doutoramento permanece por concluir.

Durante a masterclass, Susana Barros clarificou as diferenças entre jornalismo e assessoria de imprensa através de uma explicação estruturada, apoiada em exemplos práticos. Destacou que o jornalista tem como função informar o público com base na verificação de factos, recorrendo a múltiplas fontes e mantendo independência editorial. Já o assessor de imprensa atua na promoção da imagem e dos interesses do cliente, selecionando e enquadrando a informação de forma estratégica, com o objetivo de influenciar a cobertura mediática. Sublinhou ainda que ambos os papéis coexistem no mesmo ecossistema mediático, exigindo uma clara distinção de funções e responsabilidades.

A oradora abordou também as especificidades do jornalismo político, caracterizando-o como um “jornalismo de bolha”, que funciona num circuito fechado e onde as dinâmicas de bastidores e rivalidades partidárias frequentemente se sobrepõem ao conteúdo legislativo. “O jornalismo político não é descritivo, mas sim de interpretação”, afirmou, alertando ainda para a necessidade de o jornalista evitar ser um mero “pé de microfone”.

Através de exemplos práticos, como a análise de manchetes durante a formação da “geringonça” ou um episódio mediático envolvendo o ex-Presidente da República (Marcelo Rebelo de Sousa), Susana Barros ilustrou a forma como as notícias podem integrar o próprio jogo político, funcionando como veículos de comunicação indireta entre atores políticos.

No segmento dedicado à assessoria política, destacou que muitos assessores são recrutados entre jornalistas precisamente pelo seu conhecimento da lógica mediática. Sublinhou competências essenciais como o controlo da narrativa, o domínio técnico da comunicação, a gestão de silêncios e o cultivo de relações com os media.

Questionada pelo público sobre questões éticas, nomeadamente a omissão de informação, a convidada foi clara: “quando o assessor não pode contar tudo, mais vale estar em silêncio”. Defendeu que não se trata de um dilema ético, mas de uma mudança de função e de lealdade, afirmando que “como assessora, a minha lealdade não é com o público, mas sim com o político com quem trabalho”.

A sessão terminou com um momento de debate, incluindo uma provocação da professora Patrícia Ascensão sobre a possibilidade de um jornalista “despir” completamente os seus valores ao transitar para a assessoria, uma questão que gerou reflexão entre os presentes.

Em síntese, a masterclass proporcionou uma análise crítica e esclarecedora sobre os papéis distintos, mas interdependentes, do jornalista e do assessor no ecossistema mediático e político. Como concluiu Susana Barros: “o jornalista informa, o assessor influencia”.

Autores: Francisca do Carmo Coimbra e Rúben Bastos

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