Como resistir à erosão do tempo na principal rua de Portalegre

A Rua do Comércio já não é a mesma coisa. Já não há o burburinho de outros tempos. Há menos proprietários, porque há menos clientes. Mas, entre lojas fechadas, uma porta continua aberta há 65 anos.


Altino Valério Baptista trabalha há 65 anos na mesma loja de retrosaria na Rua do Comércio, em Portalegre. A sua história confunde-se com a da própria cidade, marcada pela desertificação do centro histórico, pelo envelhecimento da população e pelo declínio do comércio tradicional que outrora fez desta rua o coração económico e social da cidade.

A Rua do Comércio está aberta, mas quase vazia. As montras sucedem-se em silêncio e o som mais presente é o dos próprios passos de quem passa. Dentro de uma das lojas mais antigas da rua, atrás de um balcão marcado pelo tempo, está o senhor Altino Valério Baptista. Há 65 anos que abre esta porta todos os dias.

Altino Batista nasceu em maio de 1941 na freguesia da Urra. Chegou a Portalegre ainda jovem, para trabalhar como caixeiro numa mercearia. Foi nesta loja, na Rua do Comércio, que acabou por fixar a sua vida. “Vim para aqui como caixeiro. Tinha estado cá noutra casa em Portalegre também, numa mercearia. Depois fui daqui para uma loja para a minha terra, para a Urra, onde estive cinco anos. Estou nesta casa desde 1960. Fui aqui empregado e agora sou patrão de mim mesmo.”

A loja que inicialmente pertencia ao seu patrão, passou a ser sua depois de muitos riscos e trabalho árduo. “Não estou arrependido, mas foi muito trabalho. Na altura, a existência era inferior àquilo que se devia. Tive que trabalhar, tive que fazer muita ginástica e felizmente hoje o que tenho aqui está pago.”

Depois de todos estes anos, Altino Batista não está arrependido da sua escolha “Não estou arrependido, mas foi muito trabalho. O que tenho destes sessenta e tal anos de trabalho é isto. Não tenho prédios, mas tenho um carro. É o que ficou.”

A Rua do Comércio era outra. “Trabalhava-se aos sábados até às nove da noite. Entre as sete e as nove era praticamente outro dia de trabalho. Havia alfaiates e costureiras. As pessoas saíam do trabalho e vinham às lojas. Esta rua era quase toda comércio.”

Altino Baptista

Vasco Vasconcelos, comerciante vizinho, reforçou o impacto desta mudança. A loja que hoje dirige pertenceu aos seus sogros e já está na família há mais de 60 anos. Ele observou que nas últimas décadas, o comércio local foi-se tornando cada vez mais difícil de sustentar. Para o comerciante, a ausência de moradores no centro histórico faz com que muitos potenciais clientes não passem pela rua. “As pessoas não querem saber. Fechou, fechou. Está a andar e pronto. Agora não mora ninguém”.

Vasco Vasconcelos

Orlando Povoas, que nasceu e cresceu em Portalegre, ofereceu outra perspetiva: a cidade perdeu o hábito de valorizar o comércio tradicional. Ele lembra como na sua juventude a Rua do Comércio era uma rua viva e movimentada com lojas abertas e clientes a circular diariamente. “Por mais vontade com que a pessoa esteja atrás do balcão, se não houver clientes, não dá. Era bom que houvesse dinâmicas, incentivos, mesmo no verão, para as pessoas saírem de casa. Isso podia trazer vida à cidade e ao comércio”.

Orlando Povoas

A realidade demográfica do concelho é clara. Segundo os Censos de 2021, a população de Portalegre diminuiu para cerca de 22.369 habitantes, uma queda de 10,3% em relação a 2011, quando eram 24.930. Desde então, a tendência manteve-se: estimativas de 2024 apontam para 21.754 residentes, o que confirma que a cidade continua a perder pessoas de forma persistente. Altino Batista sente na pele os efeitos desta realidade: menos gente na rua significa menos clientes, menos movimento, menos vida para os negócios que sustentam a cidade.

A loja do Altino Batista não é apenas antiga pelo tempo que ele lá passou. É antiga pela própria história das paredes que a sustentam. Pelos vestígios que ainda restam e percebe-se que ali já se vendeu muito mais do que tecidos ou retrosaria. “Isto dá a ideia que, em tempos, foi uma loja que vendia de tudo desde salsicharia ao vinho, papelaria. Vendia-se aqui de tudo, com certeza.”

Durante as obras feitas ao longo dos anos, Altino Batista descobriu marcas dessa memória escondida. Atrás da loja, encontrou grandes potes de barro soterrados no chão. “Disseram-me que aquilo era para a conservação das carnes, do toucinho, dos enchidos. Naquela época não havia câmaras frigoríficas e aquilo servia para conservar as carnes de porco.”

O comerciante não tem dúvidas quanto à idade do espaço. “Esta loja tem mais de 100 anos. De certeza. Quando fiz aqui uma obra, deitei muita coisa fora que hoje tenho pena de não ter guardado.” Entre o que se perdeu estavam livros de faturas antigas, documentos e registos que poderiam hoje contar a evolução dos preços e dos hábitos de consumo ao longo de um século. “Gostava de confrontar aqueles preços com os de agora”, confessou.

Para o proprietário, essa memória coletiva está a desaparecer. “Não há placas, nem fotografias visíveis, nem registos acessíveis a quem passa. Às vezes tenho pena de certas histórias não se repetirem por aí adiante para as pessoas conhecerem como foi isto ou foi aquilo.”

Depois de tantos anos a trabalhar, disse que sente orgulho na confiança que foi construída ao longo do tempo com os clientes e que já não é tão comum em outros negócios “Sinto que, felizmente, ainda há clientes, amigo, pessoas que confiam naquilo que eu digo e isso dá-me um certo orgulho. É bom quando pensam vamos lá ao Altino. Para mim, é isso que importa: servir bem, orientar, ajudar quem procura.”

Ainda assim, Altino Batista continua ali. Enquanto fala, dobra tecidos, arruma e desarruma prateleiras, interrompe o trabalho quando entra um cliente. “O nosso trabalho é desarrumar quando vem o cliente e arrumar quando o cliente vai embora”. É um gesto simples repetido milhares de vezes que resume décadas de trabalho.

Altino Batista sabe que, um dia, a loja poderá fechar ou passar para outras mãos, mas enquanto houver movimento, enquanto houver pessoas interessadas em ouvir, aprender e comprar, ele afirmou que continuará ali.

O comerciante observou as mudanças daquela rua de perto. “Estou aqui há 65 anos, vi tudo mudar, lojas fecharem, a rua a esvaziar, os clientes a irem-se embora. Mas ainda tenho a minha rotina, ainda recebo pessoas, ainda converso, ainda faço o meu trabalho com orgulho”, contou. Para ele, cada dia é uma oportunidade de manter viva a história de um comércio que foi o coração de Portalegre.

Altino Batista

A sua história é também a da própria cidade: marcada por desafios demográficos, por transformações no comércio e pela luta diária para manter viva a vida no centro histórico. Enquanto o senhor Altino estiver na sua loja, a rua nunca estará completamente silenciosa.

Autora: Fátima Djaló

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