De espectador a campeão na Baja Portalegre

A chuva intensa e a lama marcaram a edição de 1997 da Baja Portalegre, obrigando à redução do percurso e deixando vários concorrentes atolados. Para Nuno Matos, que participava pela primeira vez, a experiência terminou poucos quilómetros depois da partida.

Esta é uma das histórias que fazem parte das memórias de pilotos e elementos da organização, que revisitam episódios marcantes de uma das principais provas de todo-o-terreno.

Desde criança que Nuno Matos tinha o sonho de participar na Baja Portalegre. “Não sei exatamente que idade tinha, talvez uns dez anos, mais coisa, menos coisa. Ia pela mão dos meus pais assistir àquele fenómeno que ia acontecer pela primeira vez em Portalegre: a Baja de Portalegre.”

O piloto, natural de Portalegre, fala sobre a ansiedade que se vivia dias antes da prova e recorda uma das muitas histórias que viveu. “Estavam a filmar e apareceu a minha BMX. Reconheci-a porque era a minha bicicleta. Os carros a correr e eu a ver o prólogo da Baja de Portalegre. Para quem assistiu durante dez edições do lado de fora e era jovem, era natural sonhar: Será que um dia vou conseguir estar do outro lado?”

A edição de 1997 permanece na memória de Nuno Matos como uma das mais difíceis da história da prova. A chuva intensa que antecedeu e acompanhou a competição transformou os caminhos em zonas de difícil passagem, deixando vários concorrentes atolados e obrigando à redução do percurso.

Para o piloto, que participava pela primeira vez na Baja de Portalegre na altura como copiloto do seu irmão Pedro Matos, a experiência ficou muito aquém das expectativas. Depois de várias noites de ansiedade e preparação, a participação terminou praticamente no início, quando ficou atolado no prólogo e não conseguiu prosseguir.

A estreia que tanto aguardava acabou por se transformar numa desilusão, num episódio que recorda como um dos mais marcantes da sua relação com a prova. “Havia tantos carros presos que não existiam máquinas nem condições para nos retirar dali, por isso desistimos. Aquele sonho transformou-se, entre aspas, num pesadelo, tanto nervosismo e tanta expectativa para, afinal, fazermos três ou quatro quilómetros e ficarmos atolados.”

Em 2016, Nuno Matos sagrou-se campeão nacional em Portalegre, acabando por ficar em terceiro na Baja Portalegre, mas foi campeão em casa, um momento muito especial que certamente nunca irá esquecer.

Nem a dor trava a vontade de vencer

Se a edição de 1997 ficou marcada pelas condições meteorológicas extremas, outras histórias mostram até onde pode ir a determinação de quem disputa a Baja. António Maio recorda uma participação em que, depois de uma queda durante a prova, decidiu continuar a competir, apesar de ter fraturado a clavícula.

O objetivo era alcançar o décimo lugar, resultado de que precisava para conquistar o título de campeão nacional. Mesmo com dores e problemas mecânicos na mota, o piloto prosseguiu até ao final, terminando na oitava posição.

A decisão, tomada no calor da competição, teve consequências que perduram até hoje, com limitações no ombro que associa ao esforço realizado nessa prova. “Naqueles momentos quentes tomamos decisões que depois, claro, arrependi-me e se fosse agora, jamais faria uma coisa dessas”

O piloto que ganhou o seu primeiro título de motas aos 19 anos sendo o mais jovem a vencer a edição e atualmente tem 8 títulos nessa categoria, fala sobre o quão especial é ganhar na sua cidade. “Tinha 19 anos e foi incrível, foi mais uma vez tornar um sonho em realidade, que na altura era vencer a baja de Portalegre, e em casa com um público brutal, já tinha muita gente que me conhecia, já tinha um envolvente diferente, a equipa, foi brutal, foi muito giro.”

As dificuldades da Baja não se limitam às quedas ou às condições do terreno. Para quem acompanha a prova no terreno, a adaptação aos caminhos e à condução noturna também pode representar um desafio.

Um dos elementos da organização, Carlos Silva, recorda a sua primeira experiência a conduzir no campo durante a noite como particularmente complicada. Sem referências semelhantes às que existem na estrada e com a humidade a dificultar a visibilidade, a orientação tornou-se uma tarefa exigente.

A experiência foi uma aprendizagem progressiva, mas os primeiros momentos deixaram dúvidas quanto à capacidade de adaptação a um ambiente tão diferente daquele a que estava habituado. “Mesmo andar de dia no campo fazia-me confusão, mas a minha primeira condução à noite no campo foi horrível. Pronto, e depois foi tudo uma aprendizagem. “

Apesar da sua primeira experiência desagradável e cheia de dificuldades, participou na organização da Baja Portalegre de 1997 a 2022 e partilha histórias que nunca irá esquecer. “Foi uma experiência incrível, incrível, incrível. Adorei.”

  • António Maio, campeão nacional em 2012
  • Categoria de Auto na Baja Portalegre 500
  • Apresentação dos carros ao público
  • Carro de rali cruza terreno enlameado durante a prova
  • Imagem aérea da prova

Autor: Luís Pereira

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